Quando
João e Maria avistaram uma casa
feita de doces não resistiram: nem mesmo o medo da bruxa
malvada foi capaz de impedí-los de entrar. Todos nós
temos uma queda por doces: poucos dispensam
a sobremesa. (A
tara não se restringe aos humanos: o que pensar das formigas?)
O QMCWEB apresenta os açúcares
e os compostos orgânicos não nutritivos que estão
sendo usados para "tapear" nosso paladar: os adoçantes
artificiais.
O açúcar que utilizamos em casa contém a sacarose:
um dos vários compostos orgânicos de sabor doce, incolores,
solúveis em água, encontrados na seiva de várias
plantas (como a cana-de-açúcar) e no leite de mamíferos.
O açúcar mais comum é justamente a sacarose,
que, puro, é utilizado na indústria de alimentos e
bebidas.
Os açúcares pertencem a uma classe de compostos
orgânicos chamada carbohidratos*,
ou hidratos de carbono. O nome deriva da reação
de fotossíntese que ocorre nas plantas, com a ação
catalítica da clorofila: o dióxido de carbono se
combina com a água e formam a glucose. As moléculas
de glucose podem se combinar e formar outros dois componentes característicos
das plantas: a sacarose, a celulose e o amido. As moléculas
de celulose garantem a sustentação da planta, e as
de amido servem como um armazenamento de alimento para servir à
nova planta, durante o crescimento inicial.
Tanto a sacarose, amido ou celulose são vitais para as necessidades
básicas do homem. O QMCWEB, por exemplo, é uma
das poucas revistas que não utilizam celulose: todos os livros,
jornais e revistas que lemos são impressas em papel - feito
de celulose. O pão nosso de cada dia é feito com amido
e adoçado com sacarose. Mesmo a cervejinha gelada deve a
sua existência à sacarose: é a fermentação
desta que produz o álcool e o CO2.
Nesta edição você ficará sabendo um pouco
mais sobre os carbohidratos.

glucose

frutose
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Os
carbohidratos são, provavelmente, os compostos orgânicos
mais abundantes nos organismos vivos. Estruturalmente, podem
ser vistos como aldeídos poli-hidroxilados ou cetonas polihidroxiladas;
ou, ainda, compostos que, pela hidrólise, podem se transformar
nestes. Eles podem sem divididos em quatro grandes grupos: monossacarídeos,
dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos.
Os monossacarídeos
são os mais simples: apenas uma unidade de açúcar
em cada molécula. A glucose, a frutose e a galactose são
os monossacarídeos mais comuns, e possuem a mesma fórmula
molecular: C6H12O6.
A frutose e a glucose são encontradas em frutas e no mel
e a galactose no leite dos mamíferos. Embora tenham a mesma
fórmula molecular, estes compostos tem estruturas químicas
diferentes, isto é, são isômeros. O sabor de
cada um também é diferente. Sabe-se que o doce do
açúcar depende grandemente da posição
dos grupos -OH que compõe a estrutura molecular.
sacarose
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Quando
duas moléculas de um açúcar simples se unem elas
formam um dissacarídeo.
A sacarose, por exemplo, é um dissacarídeo formado por
uma unidade de frutose e outra unidade de glucose. A energia contida
nas ligações químicas na frutose, glucose ou sacarose
é a resposável por suprir, na maioria dos seres vivos,
a energia necessária para suas atividades.
Os monossacarídeos podem, também, se combinar e formar
macromoléculas, com longas cadeias de unidades de frutose, glucose
ou galactose repetidas. Estes são os polissacarídeos:
moléculas com mais de 10.000 unidades de açúcares.
Mais de uma centena de espécies foram identificadas, mas as mais
comuns são a celulose e o amido.
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Proteínas
doces!
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Dentre os novos compostos utilizados como adoçantes, destacam-se
duas proteínas: a monelna e a taumatina. A monelina
é uma proteína heterodimérica com uma cadeia
alfa de 45 amino-ácidos e outra cadeia beta de 50 amino-ácidos.
É isolada de uma planta africana que produz amoras, a Dioscoreophyllum
cumminsii diels.
A taumatina é uma proteína
simples, com uma cadeia de 207 amino-ácidos. É extraída
do fruto da planta africana Thaumatococcus daniellii benth.
Ambas são cerca de 3000 vezes mais doces do que a sacarose!
Nós conseguimos detectar a presença desta substância
mesmo em concentrações tão baixas como 1 x
10-8 M. Embora tenham também valor
comercial, como adoçantes, estas proteínas estão
ajudando a entender como os receptores sensoriais, na língua,
funcionam. |
Os carbohidratos
são muito importantes para os seres vivos. O mecanismo de armazenamento
de energia, para quase todos os seres vivos de nosso planeta,
baseia-se em carbohidratos ou lipídeos - os carbohidratos são
uma fonte de energia imediata, enquanto que os lipídeos queimam
em uma velocidade menor, servindo para longo prazo. O ciclo metabólico
da glucose, por exemplo, é vital para os organismos vivos, tal
como o homem: falhas neste ciclo acarretam vários males, tal
como os desencadeados pela diabetes. Os seres ruminantes, tal como o
boi, são capazes de converter os polissacarídeos como
a celulose (indigesto para o homem) em açúcares
menores e proteínas; e são justamente estes seres a maior
fonte protéica para a humanidade. Vários antibióticos,
tal como a streptomicina, são derivados de carbohidratos. O iogurte
também deve sua existência aos carbohidratos: os lactobacilos
(bactérias que habitam o leite) convertem o açúcar
em ácido lático, gerando o iogurte.
A quantidade total de energia (ou, como a mídia normalmente chama,
"caloria") requerida para um indivíduo depende da idade,
ocupação e outros fatores, mas geralmente gira em torno
de 2.000 a 4.000 calorias (uma caloria, por definição,
é a quantidade de calor necessária para aumentar a temperatura
de 1,000 grama de água de 15o para
16o C). Um grama de carbohidrato produz
cerca de 4 calorias, quando metabolizado, no homem. Para efeito
de comparação, um grama de gordura produz cerca de 9 calorias
e 1 grama de proteína produz também 4 calorias. Como são
rapidamente metabolizados e altamente energéticos, os carbohidratos
são, geralmente, os pratos principais dos atletas antes das competições.
Esta
alta capacidade calórica pode ser, para alguns,
sacarina
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um
problema: muitas pessoas, por motivo de saúde ou estética,
precisam evitar o consumo de açúcar. Um bolo amargo
ou um refrigerante salgado não agradaria ninguém:
é aí que entram os químicos e os adoçantes
artificiais. O primeiro composto químicos a ser utilizado
como um substitutivo da sacarose foi a sacarina
(a imida do ácido orto-sulfobenzóico). Em 1879, os
químicos Ira Remnsen e Constantin Fahlberg, investigavam
a oxidação do o-toluenosulfonamida. Após uma
tarde exaustiva de trabalho, foram para a lanchonete, onde perceberam
que os seus lanches estavam estupidamente doces! Fahlberg lembrou
que não havia lavado as mãos ao sair do laboratório;
checando os produtos da reação, ele descobriu a sacarina,
um composto orgânico cerca de 500 vezes mais doce que o açúcar.
O composto parecia perfeito: muito solúvel em água
e, pásmem!, não era metabolizado pelo organismo: amostras
de urina revelaram que o composto saia intacto do organismo. Diabéticos
e pessoas que não querem ganhar peso rapidamente adotaram
a sacarina como adoçante. Hoje, vários produtos alimentícios
"diet" utilizam a sacarina para dar o sabor doce, sem
nenhum valor calórico. Embora alguns estudos tenham evidenciado
o aumento de câncer no fígado e nos rins, em ratos,
o consumo de sacarina foi aprovado e estimulado na grande maioria
dos países.
Outros
adoçantes artificias vieram logo em seguida. Um deles foi
o ciclamato (ácido
N-Ciclohexilsulfâmico) ou derivados,
clclamato
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que
são cerca de 30 vezes mais doces que a sacarose. São
muito usados em bolos, doces, refrigerantes e como conservantes
na indústria alimentícia. Foram descobertos em 1937,
por Michael Sveda. Tal como a sacarina, não possuem valor
calórico, pois não são metabolizados no organismo
humano. Entretanto, algumas bactérias presentes no trato
intestinal podem hidrolizar os ciclamatos para formar a ciclohexilamina,
um potencial carcinogênico. Dois estudos científicos,
feitos na década de 70, associaram a ingestão de ciclamatos
com câncer nos rins em ratos. Embora seja proibido nos Estados
Unidos, o ciclamato é utilizado em vários países,
incluindo o Brasil.
Embora
recente, o aspartame já
é um dos adoçantes mais utilizados
e mais polêmicos. Devido ao seu grande consumo, várias
indústrias açucareiras espalharam na mídia
e na internet uma boataria sobre "os grandes males" provocados
pelo aspartame. Centenas de spams, via e-mail, chegam até
hoje, à redação do QMCWEB, alertando para os
"perigos" do aspartame. Na internet, milhares de sites
dedicam-se exclusivamente a incentivar o boicote do aspartame. Sem
nenhum fundamento científico, estes boatos visam denegrir
a imagem deste adoçante que pode comprometer os lucros das
usinas de açúcar.
aspartame
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O aspartame,
ou aspartilfenilalanina, foi descoberto em 1965. Ao contrário
dos anteriores, o aspartame tem um certo valor (irrisório)
calórico. Mas,
como é cerca de 150 vezes mais doce do que a sacarose, a
quantidade utilizada em um prato é muito pequena e, por consequência,
não causa nenhuma contribuição nutricional.
É, atualmente, o adoçante preferido pelos fabricantes
de refrigerantes e outros produtos alimentícios. É
totalmente contra-indicado aos que sofrem de uma doença rara:
os fenilcetonúricos (por isso, na "Coca-Light",
existe um aviso a respeito).
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Cerveja...
light ?!
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| Embora
os refrigerantes possam ser fabricados com adoçantes artificiais
não nutritivos, isto não pode ser feito com bebidas
alcóolicas. No processo de fabricação, enzimas
presente no fermento convertem a glucose em etanol e gás
carbônico. Como os adoçantes artificiais não
contém glucose, não podem substituir o açúcar
nas bebidas alcóolicas. Neste caso, a melhor estratégia
é beber algo bastante forte, onde a maioria da glucose já
foi convertida para o etanol! |
Mais
recentemente, vários compostos foram adicionados à lista
dos adoçantes artificiais. Entre
estes, a Taumatina, uma proteína extraída da planta africana
Thaumatococcus Danielli, que já utilizado no Japão
desde 1979 (vide quadro acima). O acesulfame de potássio (vendido
como Sunette) foi aprovado no EUA em 1988. A steviosida, derivada da
planta Stevia Rebaudiana,
foi usada no Japão e, hoje, está sendo utilizada em países
da América do Sul, tal como no Brasil: é cerca de 300
vezes mais doce do que a sacarose. Em 1981, foi patenteado, nos EUA,
a L-sacarose. Para olhos destreinados, a estrutura molecular da L-sacarose
parece idêntica a da sacarose. Este composto, entretanto, é
a imagem especular (um estereoisômero) da sacarose que utilizamos.
Enquanto que esta é metabolizada pelo organismo, a L-sacarose,
embora doce, é excretada intacta - não é reconhecida
pelos sítios catalíticos metabólicos. O único
problema é a fabricação: enquanto que a D-sacarose
é facilmente extraída da cana-de-açúcar,
a L-sacarose é sintética e o processo é caro e
demorado.
A idéia é simples: conseguir o sabor doce sem a injeção
calórica da sacarose e, principalmente, sem efeitos colaterais
no organismo. Químicos do mundo inteiro continuam a busca por
mais substâncias com estas propriedades: moléculas doces!
*
= Os dicionários
da língua portuguesa, tal como o Aurélio, escrevem
"carboidratos", sem o "h". O editor do
QMCWEB achou a forma "carbohidrato" mais correta,
pois o nome vem da combinação "hidrato"
+ "carbono". O "h", neste caso, tem a
mesma função desempenhada em palavras como "hidráulico"
ou "hidroginástica". O "h", embora
não pronunciado, denota a presença de um elemento
químico - o hidrogênio. Para o editor do QMCWEB,
os dicionários é que estão equivocados.
Ainda, o termo em inglês é "carbohydrate".
Este não é o único exemplo de termo científico
"erronemente traduzido" para o português...
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